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Os orgânicos da Quitanda Natural

 

“Ontem vi que os pés de pinha estão carregando! Daqui a pouco vai dar goiaba amarela! O pé de limão galego está lotado!” Exclamações como estas são parte da rotina diária de surpresas da fazenda Dom Bosco, sede da Quitanda Natural. Colhem, colocam no pequeno caminhão e atravessam a BR-101 em direção ao Rio. Em duas horas cá estão, distribuindo seus vários artigos orgânicos – farinhas, frutas, legumes, tubérculos, ervas e até molhos, compotas e vinagres – por 12 diferentes feiras do Circuito de Feiras Orgânicas espalhadas pela cidade, além de abastecerem a cozinha de diversos restaurantes, como as do Bazzar. Com eles, compramos regularmente o aipim, a farinha de milho, o fubá e o abacaxi – todos em sua devida estação, é claro. Compromisso, paixão, mão na terra e boas histórias traduzem o trabalho de um dos nossos mais inspiradores fornecedores locais.

Entre a lavoura, o processamento e a administração em uma gestão composta predominantemente por mulheres, é Anita Santoro quem capitaneia a produção em governança circular, “um sistema de coordenação onde todas as decisões são tomadas em consenso”, me ensinou. A magia acontece em Silva Jardim, o município mais pobre do Rio de Janeiro, com pouco mais de 20 mil habitantes que vive essencialmente de uma até então precária atividade de agricultura familiar. Mas sem passe de mágica: o trabalho é atento e difícil, a auditoria que dá o selo de produto orgânico, severa. Trabalhar sem agrotóxicos significa multiplicar a mão de obra braçal, a capina diária, a manutenção minuciosa de todos os detalhes. “Não são máquinas por trás das plantações, são pessoas em trabalho constante – e o custo disso é altíssimo”, explica.

Entre nossa conversa, uma ligação para saber se a máquina de vácuo foi consertada depois de um raio cair no lago da propriedade, presenteando-a com uma poderosa descarga elétrica, outra sobre a chave da porteira e a qualidade dos palmitos pupunha extraídos naquela manhã… Quem escuta Anita falar de sua trajetória, com seus três filhos nascidos em casa de parto natural, todos vegetarianos até hoje, imagina que ela cresceu habituada com a vida rural. Que nada. Foi só há quatro anos que, depois de conhecer os primos agricultores na região da Calábria, Itália, descobriu que também tinha uma forte conexão com a terra. De volta ao Brasil, fez cursos na área e decidiu, enfim, largar uma carreira premiada de consultoria de marketing para buscar um pedaço de terra para sonhar. “Trabalhei no meio corporativo por 30 anos, e era feliz nele, mas sempre tive um ‘lado B’. Não como carne e organizava feiras orgânicas na minha própria casa. Queria um trabalho que fosse o meu negócio, mas fosse um negócio do bem”, conta, com semblante cansado, mas notavelmente realizada. Foi quando achou a Fazenda Dom Bosco, um terreno de 100 hectares completamente depredado. “Compramos apenas com a intenção de plantar árvores e fazer uma reserva. Não se via borboletas, pássaros, nada. Não havia vida”, relembra. Ao passo que reflorestava, aprendia com agricultores locais, que iam chegando e apontavam que ali dava abóbora, ali, quiabo, logo ali, mandioca… “E começamos.”

Trabalhar com orgânicos, me disse Anita, é sobre compreensão. Sobre entender o tempo da terra, as vontades da natureza, de cada espécie cultivada – e respeitá-las. A mandioca e as batatas-doces, por exemplo, não precisam de adubo nem irrigação. “São valentes, só a chuva dá conta.” Já os abacaxis produzidos por lá com a sabedoria de Seu Diniz, agricultor local de 83 anos, só saem da terra se estiverem docinhos, sem acidez, graças ao manejo caprichoso e aos biofertilizantes de origem natural. “Algumas semanas rendem 10 abacaxis, outras rendem 450”, aponta, com naturalidade. Pode acontecer – e aconteceu – que a boiada do vizinho quebre as cercas, pisoteie e coma alguns hectares de milho prontos para a colheita. O resultado? Uma baixa no rendimento do fubá e farinha de milho. Prejuízo, pausa no fornecimento… Paciência. Na outra ponta, o empresário faz seus ajustes, muda a farinha no prato, pois o inesperado faz parte do trabalho com um fornecedor orgânico, pequeno, artesanal. O cliente entender que não comerá sua farofinha de milho com o picadinho carioca naquela semana? Essa é a parte mais complicada.

A ideia da agricultura romântica, porém, cai por terra quando fala-se da rigorosa inspeção dos órgãos certificadores. Para ter o tal selo, absolutamente tudo é auditado – das carteiras de trabalho e impostos dos funcionários, que devem estar sempre em dia, à pureza da água usada em cada torneira da propriedade. “Nos produtores convencionais não há limite de veneno, nada é controlado. Se um remédio não mata uma praga, o produtor aplica outro, e essa química se acumula naquela planta. Aqui, a tolerância é zero.” Na “roça” de Anita, como carinhosamente chama a fazenda, um dos recursos mais utilizados para afastar as pragas das plantações é a calda de lagarta. “Batemos no liquidificador as mesmas lagartas que comem as plantas, deixamos a mistura fermentar e despejamos sobre as folhagens. Quando novas lagartas tentam comer as folhas, morrem.” Com o esterco de boi, que também deve ter certificação orgânica, funciona da mesma forma: fermenta por 45 dias em grandes bombas com água, é diluído e colocado nas plantações. “Não dá bicho nenhum, a planta fica o Super-Homem. Os biofertilizantes são tão potentes que já colhi berinjelas com 600g, mas não vendo, pois não acreditam que é orgânica. Esse negócio de tamanho é mito”, explica. Se for ao “Dia da Roça”, quando uma vez a cada dois meses Anita abre a propriedade para visitação do público, que planta, colhe e almoça por lá, não se espante ao ver plantações de couve cercadas por cascas de ovo de galinha. É que a lagarta que ataca os pés da hortaliça não põe ovos onde existem ovos maiores que os dela. “Parece brincadeira, mas é verdade”, diverte-se. Outra maneira de assegurar a saúde de algumas lavouras é utilizar plantações consorciadas. Linhas de vistosos girassóis, por exemplo, abraçam os limites das lavouras de milho para atrair parasitas voadores, que comem o miolo das flores em vez das espigas, enquanto ervas aromáticas como alecrim e sálvia seduzem e desviam a atenção de pragas da plantação de tomates. “Se colocarmos gengibre também não dá praga nenhuma. Gengibre não é bom para a imunidade? Na terra também é assim. Todos os princípios ativos que uma planta tem no nosso corpo, também empresta para a terra onde está plantada”, ensina.

Enquanto não realiza seu sonho de fazer uma escola de agricultura orgânica na fazenda Dom Bosco, Anita exercita o nobre movimento do compartilhar. No início, organizava mensalmente um café da manhã na fazenda para os pequenos agricultores vizinhos, e convidava seu consultor para dar-lhes o beabá das receitas de biofertilizantes como a tal calda de lagarta. “Eles eram tão pobres que eram orgânicos sem saber, mas não cumpriam requisitos para serem certificados.” Hoje, já são 32 com certificação orgânica e, com a ajuda de Anita, ganharam não só técnicas e informação, mas apoio logístico do Sebrae, que lhes construiu galinheiros e hortas circulares. “É tão bom estar lá, é tão boa a experiência de aprendizado. É tudo tão emocionante. Acho que ter o privilégio de poder ajudar é quase melhor do que quem está recebendo a ajuda. Dá um alento…”, derrete-se.

Quando está triste, Anita vai para a lavoura, pega uma enxada, planta algumas mudas e se sente melhor. E tem adubo melhor que o amor pelo que se faz?

Mateus Habib

    

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