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Orgânicos da Fátima

 

“Já entraram no paraíso?” é a primeira pergunta que Fátima nos faz quando chega ao encontro que marcamos no Alto da Boa Vista. Um acidente entre as curvas apertadas da estrada das Furnas fez com que ela se atrasasse, mas chegou sorrindo, como sempre está, aliás, e aninhando com palavras e as pontas dos dedos os brotos e sonhos que cultiva a quinze minutos das buzinas da Barra da Tijuca. Ali, escondida atrás de uma marmoraria ativa há décadas, são duas grandes estufas e alguns canteiros de onde saem brotos, mini legumes, raízes, ervas e flores, todos comestíveis, sem nenhum aditivo químico.

Enquanto eu perguntava sobre absolutamente tudo, feito criança que tagarela na fase dos “porquês”, Claudio de Freitas, chef do Bazzar, que tem mania de alçar os ingredientes brasileiros à genialidade, falava sobre a rotina das nossas cozinhas: “Fátima, esse broto de ervilha é muito frágil; testei, mas não funciona pra gente. Ah, você vai ter abóbora?” Ela rebatia: “Frágil? Então vou deixar os seus crescerem mais um pouco. Abóbora, tô com umas sementes ótimas, vou plantar para o próximo verão e te aviso.” Eu assistia, fascinado, letra cada vez mais pastosa no caderninho de capa mole, esse diálogo fundamental e urgente, apesar de raro, do cozinheiro com o agricultor.

Um por um. Fátima começou exatamente assim. Cearense, neta de índios, formou-se em História na Paraíba e foi fazer um curso em São Paulo, onde se apaixonou por um carioca. Decidiram morar em Petrópolis – “pois tinha horror ao Rio” –, e lá nasceram os dois filhos. Em busca de qualidade de vida, saíram do centrinho brumoso da cidade imperial para uma casa na zona rural, o Brejal, em 2001. “Todos meus vizinhos plantavam orgânicos, e fiquei doida com aquilo tudo. Me apaixonei e disse para mim mesma que era com isso que queria trabalhar.” Aprendeu com os locais as técnicas e truques do manejo, e berinjelas, cenouras e abobrinhas depois, começou a vender cestas de orgânicos para a cidade. Ligava para seus potenciais clientes e oferecia suas joias da terra. “Nasceu tudo muito rápido e não tinha onde vender. Abria as páginas amarelas e telefonava para todas as residências, restaurantes e hotéis de Petrópolis contando que estava produzindo orgânicos e perguntando se não tinham interesse em comprar uma caixa”, relembra. Em uma dessas investidas, acabou parando na cozinha de um restaurante na Dias Ferreira, no Leblon. O Rio conheceu seus produtos, e as estradas da serra sinuosa viraram rotina. Vieram as enxurradas de 2010, e com seus deslizamentos de terra, Fátima perdeu praticamente tudo. Logo depois, um assalto traumático a deixou desanimada de continuar o sobe e desce. Veio a certeza de que a cidade da qual tinha aversão seria mesmo onde criaria raízes. Achou um terreno no Alto da Boa Vista por um passeio descompromissado pelo Google Maps, passou quase um ano limpando e tirando o entulho da área, antes abandonada. E ali fez brotar.

O caminho dos brotos – hoje seu carro-chefe – é delicado e poético como lhes cabe. Rebentos nutritivos, cada um tem a leveza de um alfinete, e a potência de um maço inteiro da hortaliça que seriam se lhes sobrasse tempo. Suas sementes são plantadas individualmente em grandes bandejas plásticas que lembram caixas de ovos, e seu crescimento controlado a cada minuto, com capina manual, o desbaste, e irrigação cautelosa, onde até a força da água e a distância da mangueira contam para que nenhum saia abalado – um broto viçoso de rabanete se esbalda num banho que o minúsculo de agrião seria incapaz de resistir. Dedos e dias depois, os fiapos de vida começam a perfurar a terra e colorir dos mais profundos tons as estufas de sol tímido. Atingido o tamanho ideal, vão para a área de corte, onde o fio fino e inquieto de uma tesoura separa o caule da raiz. Desgarrados da terra, entram para higienização, um mergulho demorado n’água corrente. São secos em pequenos punhados no pano branco, limpinho, e, enfim, pesados e embalados. Dali partem direto às bancas da feira orgânica daquele dia, da Junta Local ou aos melhores endereços para se comer na cidade, da alta gastronomia do chef de dólmã bordado ao café hipster de Botafogo e moletom. Proximidade do produtor com o consumidor, menos tempo de transporte, mais frescor, menos poluição. Agricultura urbana, pura e simples.

As bandejas com terra e sementes que ficaram no corte são, enfim, batidas numa montanha de adubo fofo e aerado, onde brotam, desorganizadas, beterrabas, taiobas e outras raízes, as espontâneas PANCS (Plantas Alimentícias Não Convencionais), folhas crocantes de mostarda amarela, ramas ousadas de coentro, salsa, manjericão, maços rasteiros de agrião graúdo, hortelã, capim limão e outro sem fim de variedades que crescem, desta vez, até o auge de suas folhas e frutos. Desperdício mínimo, tudo que é broto na estufa, chega ao apogeu do lado de fora. Pés altivos de quiabo, coroados por uma flor de pétalas tenras, de amarelo desmaiado e coração rubro, avizinham as primeiras batatas doces roxas na casca e coração a germinarem, logo atrás dos trevos de mesma cor, que têm gosto cítrico e vieram na mala de uma viagem ao Mato Grosso. Todos estes ainda estão em teste. “Os trevinhos não deram muito certo, tô achando que não gostaram da sombra”, pensa alto, enquanto acaricia os cabelos das cenouras que acabamos de colher.

A verdade é que a força dos pequenos brotos de Fátima impressiona. Dois ou três coroando um prato no restaurante da moda sobre a cerâmica assinada, a olhos e estômagos nus, talvez nem tanto, é verdade. Mas um império vivo que pulsa, verde e luminoso, envolve qualquer um de uma energia intensa, frugal, fugaz. Parado de pé, em silêncio naquela estufa úmida, acho que entendi. Era mesmo o paraíso.

Por Mateus Habib

    

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