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O biólogo Jonas Leite

 

Entre um compromisso e outro, um carioca de sotaque arrastado dirige seu carro distraído quando dá de cara com uma cena um tanto incomum pelo trânsito do Leblon: um cinquentão pedala sua bicicleta que carrega, na garupa, um isopor. Cauda saindo para um lado, cabeça para o outro, um peixe dos grandes repousa sobre a cama improvisada de gelo. O motorista acompanha o ciclista em clima de perseguição. Faz uma curva brusca, embica o carro com a ajuda dos operários do Metrô no Jardim de Alah, à época em obras. Puxa o freio de mão e dispara a passos largos atrás do pescador misterioso, que desaparece sorrateiramente ao fechar da porta do elevador de seu prédio. O porteiro diz que ele é da Colônia de Pescadores do Posto 6, em Copacabana, e que naquele dia havia fisgado uma garoupa. Uma garoupa na garupa…

Deixaria pra lá se não fosse quem era. O jovem inconformado em busca do pescado perdido chama-se Jonas Leite, doutor em biologia marinha e pesquisador do projeto Meros do Brasil, empreitada das sérias em conservação da espécie do mero, o maior peixe ósseo da nossa costa, ameaçado de extinção e de captura e venda consideradas ilegais desde 2002. O peixe no isopor do inocente senhor morador do Leblon? Ele mesmo: um mero recém tirado do mar. Perplexo, Jonas identificou a espécie, hoje rara, a olho nu. “Era como andar com uma onça pintada ou um urso panda pendurados em uma bicicleta. Ele cruzou a Zona Sul e ninguém percebeu nada, pois não ligamos pra isso. Peixes para nós não são fauna, são recurso pesqueiro”, conta, atônito.

Jonas nasceu na Tijuca, mas desde muito cedo fez de Saquarema, na Região dos Lagos, sua praia. Foi à beira-mar que passou infância e adolescência inteiras, em fins de semana e férias de sal, areia e sol. “Desde moleque gostava de bichos, de natureza e convivia com famílias de pescadores e surfistas. Com 8 anos meu pai me deu meu primeiro aquário. Com 10, já sabia que ia fazer biologia ou oceanografia.” Em um intercâmbio para a Austrália, fez curso de surfe e mergulhou na grande barreira de corais do país. O amor pelo mar cresceu como onda grande, arrebentou na areia e fez um reboliço do bem: hoje, seu pós-doutorado no Jardim Botânico do Rio de Janeiro traz à uma equipe que estuda as algas no arquipélago baiano de Abrolhos um caráter interdisciplinar.

Pesquisador apaixonado, entusiasta da pesca sustentável, local e familiar, não demorou para que também o “fisgássemos” para dentro de nossa equipe. Ele empresta ao trabalho de consultoria que realiza com o Bazzar dados valiosos que norteiam a criação de nossos pratos e a pesquisa incansável de uma lista de fornecedores pequenos e de manejo sustentável. Orienta quais são os peixes mais abundantes na nossa costa, quais estão ameaçados ou cuja pesca é proibida – caso do cação, por exemplo –, o que são e quais são os períodos de defeso, que visam a preservação de certas espécies em seus ciclos de reprodução.

É verdade que o Rio exporta uma das culturas de praia mais fortes do mundo, mas quando pensamos na nossa cozinha, vemos o filé à Oswaldo Aranha e a feijoada de sábado brilhando muito mais do que uma posta alta de peixe grelhado ou uma porção de camarões ao alho e óleo. Ao contrário de nossos vizinhos capixabas, famosos pela moqueca de badejo, ou os catarinenses, com suas ostras vistosas e carnudas que abastecem restaurantes do país inteiro. Jonas, que se formou em Santa Catarina, acredita que nossa relação com o mar é muito mais afetiva do que produtiva – “se um garoto faz 18 anos em Santa Catarina, ele ganha um barco, não um carro”. Tem explicação: os estados de Santa Catarina e Espírito Santo são donos dos principais portos do Brasil. Nos falta legislação e fiscalização, é verdade, mas também estrutura e experiência.

Só em novembro deste ano, por exemplo, o decreto que regulamenta o licenciamento ambiental da aquicultura no Estado de São Paulo foi assinado. No Rio, ele sequer existe. “Uma noção fundamental para regulamentar a pesca em um país é quanto está sendo pescado e quanto se tem daquela espécie no mar. Não temos esses dados: o Brasil não tem estatísticas pesqueiras.” Enquanto nossa legislação é frouxa e o lobby da grande indústria de pesca segue desequilibrando o meio ambiente, resta perseguir, com o mesmo afinco com que Jonas perseguiu o senhor que pescou um mero por garoupa, o caminho da informação. Enquanto apenas 3% das multas ambientais são pagas – e por pequenos produtores com suas redes de pesca costuradas à mão –, bancar e trabalhar o aculturamento do consumidor final ainda é o melhor a se fazer. Explicar que não se pode haver peixe fresco quando houve ressaca, nem camarão que não seja congelado entre 1 de março e 31 de maio, seu período de defeso. Ou se acostumar a receber uma ligação contando que as vieiras simplesmente não cresceram na Ilha Grande nesta primavera, e a próxima leva só deve atingir o tamanho mínimo para venda em janeiro, como a que recebemos de Zoltan Biro, com voz desanimada mas conformada, nesta semana.

A barreira, acredita Jonas, ainda está na imagem do peixe para as pessoas. Peixe não tem carisma, ele insiste. “O problema é que o peixe não é tratado hoje como a galinha caipira. Ele morre sufocado, e ninguém fala disso.” Aproximar os peixes dos humanos e reafirmá-los como biodiversidade, não apenas recurso, é mais do que um escopo de seu trabalho. Virou uma missão. “O sucesso do projeto Tamar está nisso. O novo AquaRio é importante para desenvolver esse afeto, criar esse vínculo e mudar essa história. Desenvolver essa relação e esse afeto é essencial para criar a cultura da preocupação. E só a partir dela podemos começar a mudar.”

Mateus Habib

    

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