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Acolheita

“Um mercado de bairro que vende comida de verdade, direto do produtor, minimamente processada, com preços transparentes e sem embalagens.” É assim, numa só tacada, que Alexandre Tenenbaum define os pilares da empreitada. Pudera: ele e Bruno Grossman, seu sócio, pesquisaram por dois anos antes de abrir Acolheita, aberta há sete meses. Fusão de colheita com o verbo acolher, fica em Botafogo este lugar coerente e importante para se pensar comida e consumo.

Com caminhos executivos na área de gestão, estratégia e marketing em negócios de alimentação, foram os sócios-fundadores de uma grande rede de frozen yogurt, no auge da moda por aqui. O negócio cresceu e se tornou uma das maiores cadeias de franquias do ramo, abrindo lojas por todos do país. Apesar do ritmo fabril do negócio, na casa de Alexandre, o caminho era outro. “Sempre gostei de cozinhar, e quando fui morar sozinho, comecei a resgatar o que via na minha família.” Imigrantes judaicos no pós-guerra, seus avós chegaram por aqui reconstruindo suas vidas, condição que legou aos filhos e netos saberes valiosos, como o do reaproveitamento total dentro da cozinha. “Meu avô vendia limões para pagar as contas”, relembra, “e minha avó aproveitava absolutamente tudo na cozinha. Fazia picles com legumes que iam estragar, iogurte caseiro e caldo com os restos e ossos da galinha”, adiciona.

Na costura do pessoal versus profissional, as coisas não estavam mais fechando – e foi hora de partir para um projeto novo. “Sabíamos que queríamos trabalhar com comida de verdade, mas não exatamente como. Entendemos, então, que precisávamos saber mais sobre a produção de alimentos no nosso estado. E começamos uma jornada de um ano e meio no campo, visitando dos pequenos produtores à agroindústria.” Nessas andanças, mapearam de forma inteligente a vocação produtiva de cada parte do estado, chegando a uma série de conclusões. Não vinga, por exemplo, o cultivo de beterrabas orgânicas no norte, onde é muito calor, mas sim no sul, em municípios como Friburgo e Bom Jardim, onde o clima é temperado, e de onde também vêm frutas de pele delicada, como figos e pêssegos. Já os melões e melancias, me explicou, precisam de muito calor, mas de um clima seco, onde não chova muito, para que o solo não empoce, uma vez que estas são frutas rasteiras – motivo pelo qual se dão bem em porções mais quentes e secas como Campos e Quissamã, norte fluminense. “Um produtor indicava o outro, e montamos esse quebra cabeça para tentar ter a maior parte dos produtos o ano inteiro, sem incentivos químicos”, conta.

No fim desse processo, decidiram abrir um lugar onde se pode resolver a seção mais crítica da compra cotidiana de uma casa. “Começamos com o que era básico: hortifrúti, grãos e cereais, laticínios, carnes e produtos de limpeza naturais e biodegradáveis”, enumera. Agora, também ganha contornos uma área de mercearia, onde entrarão produtos desenvolvidos por lá ou por parceiros. Virá por aí a versão “de verdade” do molho shoyu, por exemplo, rara de achar nas prateleiras de um supermercado. “Os [shoyus] industrializados têm como principal ingrediente o milho, quando, na verdade, ele é um produto feito à base de pasta de soja salgada, fermentada e prensada”, explica. Também estão na mira as versões minimamente processadas de produtos corriqueiros como vinagre, conserva de atum, mel de abelha e leite de vaca, que virá fresco de fazendas fluminenses.

Empurrei a porta de vidro da loja, na curta calçada que desenha a esquina empoeirada da rua Mena Barreto, em Botafogo, e encontrei um oásis de comida de verdade. Da visão que tive, me ocorrem trechos de um conto de Clarice Lispector, tão clichê quanto exato. Fala de “uma mesa coberta por uma solene abundância”. “Maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos…”. E arrozes vários, feijões, frangos, ovos, vinhos, doces, sabão, canudo. Tudo. São vendidos a peso em embalagens levadas pelos clientes – por lá, nem ecobag para vender – e todos com sobrenome: naquele dia, os tomates e cenouras eram da famíia Melo, a goiabada da fazenda Quaresmeiras, as mini morangas da Maria Tereza, os quiabos do Jorge. São eles, esses pequenos produtores, a grande alma do negócio. “Não queremos ser o novo intermediário, por isso fazemos questão de mostrar quem é o produtor, mostrando a foto, o nome, quanto ele está recebendo por cada produto vendido e qual é sua distância da loja. Acreditamos que assim humanizamos produção do alimento, reconhecemos quem o faz como ele é”, conta, deslizando o dedo pela tela do celular me mostrando algumas das visitas que já fez. “Só vendemos produtos que conhecemos pessoalmente a terra onde crescem, que conhecemos como é feita a produção e quem produz. Engarrafei o vinho que vou vender em breve, dormi na casa dessas pessoas. Isso me dá muito mais propriedade para falar sobre um produto para o cliente.”

Se está feliz? “Muito. Sábado é meu dia mais feliz. Acordo empolgado, a loja vibra.”

Acolheita fica na rua São João Batista, 79, Botafogo, e funciona de segunda a sexta de 8h às 20h e, aos sábados, de 9h às 17h.


Por Mateus Habib

    

BAZZAR – IPANEMA / RJ
Rua Barão da Torre, 538
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